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quarta-feira, 30 de abril de 2008
Em local errado
Porto - A caçada
A trilha subia até o alto da colina bordada de luxuriante vegetação típica da terra norte catarinense: ingás, cerejeiras, cambuís, imbuías e pinheiros, muitos pinheiros.
As pinhas estavam maduras e os pinhões despencavam do alto espalhando-se pelo solo. Ali, junto ao forro de pinhões, é que eu devia ficar de tocaia enquanto os cães levantavam a caça.
Segurei firme minha espingarda carregada com dois cartuchos de chumbo grosso e escutei o marulhar do vento nas folhas da floresta.
Algumas vezes me perguntei: o que fazia as 7,00h de uma branca manhã de geada espessa, de botas e meias que não conseguiam esquentar meus pés e muito menos o resto do meu corpo envolto em ceroulas, camisetas e calças grossas de lã, blusas, japonas e um gorro que me cobria a cabeça?
-“Sou louco”, pensei. Podia ainda estar dormindo na minha cama quentinha lá em Porto União.
Minha expiração transformava-se num turbilhão condensado em grossas nuvens. O nariz e lábios ardiam como se tivesse passado pimenta neles.
-“Por que isso”? Eu não me conformava que tinha ido caçar e matar animais. No caso era uma caçada de veados.
Um tropel pesado me fez cortar os pensamentos e lamúrias. Ergui a espingarda, puxei o cão da arma e esperei.
De repente, saiu da mata uma cara comprida e peluda, com uma cabeçona enfeitada com um enorme par de chifres galhados. Era um belo animal, pardo, grande e o vapor que saia de sua boca resfolegante era intenso e ressoava no ar.
Algo me dizia:
-“Pelo amor de Deus não atire”! Não atirei!
O magnífico animal passou a poucos metros de onde eu estava e se embrenhou novamente na mata, em liberdade. Ainda olhei o coto de sua cauda enrolando, como se tivesse me agradecendo por tê-lo poupado.
Meus companheiros de caçada chegaram e perguntaram:
-“Por que não atirou”?
Respondi com voz firme:
-“Meus dedos estavam duros de frio, não consegui puxar o gatilho da arma”.
-“Tá bom, na próxima você consegue”, um deles falou.
Nunca mais houve próxima, porque eu sei quem me impediu de atirar, mas não conto. Fica entre mim e Ele!
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